No fim de maio, a Halo Studios anunciou mais um livro de Halo, intitulado “Edge of Dawn” e escrita pela talentosíssima Kelly Gay, que já fincou definitivamente seu nome na história da franquia. O barulho em torno anúncio da obra foi amplificado por um grande detalhe: Edge of Dawn será protagonizado pelo Master Chief e A Arma, em uma história que se passa imediatamente após o fim de Halo Infinite. Com isso, aquele velho debate de sempre voltou ao destaque — por que Halo conta tantas histórias grandes em livros, e não nos jogos?

Como o título já deixa bem claro, esta matéria vai direto ao ponto do argumento que quer propor: Halo nunca foi apenas videogame. Mas, antes de mais nada, sei bem que esta opinião pode soar absurda e polêmica. Por isso, tudo que peço é que se mantenham de mente aberta para entendê-la e a leiam até o final, pois a Halo Studios também não será poupada das críticas referentes à sua parcela de culpa nesta polêmica.
Na matéria de anúncio da sinopse de Edge of Dawn, a Halo Studios compara o novo livro com um clássico da franquia, First Strike.
“De certa forma, Edge of Dawn pode ser considerado semelhante ao First Strike, onde nos deparamos por um tempo com as consequências imediatas dos eventos que ocorreram em Halo: CE, lidando com algumas das coisas que aprendemos ao embarcar em uma nova aventura.”
A comparação não é nada absurda porque, sim, Halo sempre se utilizou de livros para contar grandes histórias. Vamos começar com o primeiro jogo da franquia, Halo: Combat Evolved. Você começa controlando um soldado em uma grande armadura que se vê envolto em uma guerra que começou muitos anos antes daquele momento. Você não possui muitas informações sobre aquela humanidade futurística, não tem ideia do porquê eles estão fugindo em uma nave e não tem a menor noção de quem é o inimigo ou qual é sua motivação. Você simplesmente é jogado no meio do campo de batalha e vai descobrindo algumas informações durante a campanha, mas a maior parte do contexto é limitado justamente aos livros.

Talvez você não saiba, mas Halo: CE não foi a primeira obra de Halo a ser lançada. O livro Halo: The Fall of Reach foi publicado semanas antes do lançamento do jogo e preenche justamente muitas dessas lacunas do recém-criado Universo Halo. Quem leu o best seller antes de jogar Combat Evolved teve uma experiência muito mais cristalina sobre os eventos presentes na campanha do jogo, mas a grande massa de pessoas que teve o jogo como primeira experiência, não.
Em The Fall of Reach, é contado a origem não só do protagonista Master Chief, mas do programa Spartan, como John foi localizado por Halsey ainda criança, o treinamento brutal das vítimas do programa, quem é Cortana e como ela surgiu, o estado atual da guerra contra o Covenant, como a humanidade encontrou o anel Halo (não foi uma aleatoriedade) e uma das principais lacunas deixadas pelo jogo: o que o Master Chief e a tripulação estavam fazendo antes do game começar? Lutando contra o Covenant em Reach e evacuando o planeta.

É uma situação completamente análoga ao que vemos no contexto de Halo 5 e Halo Infinite por exemplo. As maiores informações do que acontecerem entre os jogos estão nos livros.
Agora vamos para o pós-Halo: CE. Halo 2 começa com o Master Chief em uma estação orbitual na Terra, mas como ele chegou lá? Ele usou aquele veículo aéreo do final de CE para ir diretamente ao planeta? Não! Em First Strike, livro que uso como equivalente a Edge of Dawn, Master Chief tem uma de suas maiores “aventuras”, quando ele retorna a Reach e resgata Halsey e seus companheiros de time, Kelly, Fred e Linda. E o principal: eles descobrem que o Covenant havia achado a localização da Terra. Os Spartans conseguem destruir grande parte da frota do Covenant, motivo pelo qual a frota que atacou a Terra é considerada estranhamente pequena na fala de Lord Hood no início de Halo 2.

Eu poderia passar vários parágrafos citando diferentes casos, mas um fato já está claro: a maior parte da história de Halo nunca foi contada nos jogos. Faça uma breve reflexão, o quanto da lore de Halo, mesmo de alguns conceitos básicos, você sabia apenas jogando, sem o auxílio de vídeos de criadores contando a história dos livros ou sem os próprios livros? O quanto de informação sobre Halsey — que só foi aparecer na sexta campanha da franquia —, sobre os Precursores, os Forerunners, o ONI, o programa Spartan, o Covenant e sua formação, o Flood e o Gravemind, a Humanidade Antiga, os grupos insurrecionistas e outros conceitos básicos da lore, você descobriu apenas jogando? Pois é.
É preciso aceitar outro componente basilar do modelo dos jogos da saga principal de Halo: eles têm um limite de até onde eles podem se aprofundar. Por se tratarem de jogos FPS de campanha, Halo sempre adotou um estilo de história “simples” e em narrativas pouco complexas. Se a Bungie fosse colocar todas essas informações na trilogia original, os jogos se desvirtuariam completamente dessa fórmula de sucesso.
Halo, por se tratar de um FPS inteiramente focado no combate, não tem espaço para parar e passar vários minutos contando conceitos da lore, tampouco dar ênfase a trama política que sempre cercou o Covenant, a UNSC e os Forerunners. O jogo que mais se aproximou disso foi Halo 2, em que vemos o Covenant ruir por dentro, mas, ainda assim, a trama política apresentada não tem 5% da profundidade de camadas que a política do Covenant tem — é apenas um retrato superficial e direto, mas que funciona para a realidade da fórmula de Halo, do que acontece dentro da aliança.

Talvez esta seja a opinião mais controversa deste artigo, até porque é a mais subjetiva e cada pessoa tem um gosto diferente. Mas, para o autor desta matéria, a maior qualidade de Halo é este expansionismo absurdo de sua lore em diferentes formas de mídia. Algumas franquias são apenas jogos, outras são apenas produções live-action, outras HQs e por aí vai. Halo é tudo isso e mais um pouco.
O carro-chefe comercial e das grandes histórias da franquia sempre foram e continuam sendo os jogos FPS, mas também temos histórias em jogos RTS, em shooters isométricos e até mesmo em um light-gun de arcade. Fora dos jogos, temos mais de 30 livros que contam histórias de conceitos e acontecimentos com uma profundidade que não caberia nesses jogos, e de personagens lendários que também nunca terão a oportunidade aparecer em um jogo. Além desses, Halo também tem outras dezenas de HQs, contos, minisséries e animações que expandem a lore do jogo.

Os livros sempre foram não apenas um componente adicional para a franquia, mas essencial. Com a Bungie, isto já era uma realidade e com a Halo Studios, a grandiosidade dos livros foi ainda mais expandida.
Até 2016, mais de 16 milhões de livros, romances, quadrinhos, livros de arte, livros de estratégia e outros de Halo foram vendidos e mais de 12 livros já haviam se tornado best sellers do New York Times.
Independente se você leu até aqui ou não, tenho certeza de que deve ter se passado pela sua cabeça o seguinte pensamento: “Ok, mas como vou ler todas estas sobras se não falo inglês e a gigantesca maioria delas não foram localizadas para a língua e o mercado brasileiro?”. Você não está errado, muito pelo contrário. Porém, a culpa não é da essência de Halo de contar grandes histórias em livros, mas da própria distribuição da Halo Studios e do Xbox.
É vexatório apenas 4 livros de Halo estarem disponíveis em português do Brasil, língua de um país com um mercado tão grande e com tanto potencial para a franquia. Há um tempo penso em escrever uma matéria sobre este assunto, mas é essencial, para o futuro de Halo, cortar pela raiz este “Estados-unidos-centrismo.” Halo pode ser um sucesso na América do Norte, mas está muito longe de alcançar seu potencial no resto do mundo, e a mudança desta realidade tem que partir da Halo Studios — não adianta reclamar que investir em outros continentes não é rentável se a própria empresa não busca, estrategicamente, investir nestes mercados. Halo jamais alcançará seu verdadeiro potencial enquanto se limitar aos Estados Unidos.
Portanto, não sinta a menor culpa em não ser um fã desta estratégia da franquia Halo. A realidade simplesmente não é justa com nós brasileiros e a Halo Studios sempre demonstrou dificuldade em incluir o resto do mundo no ambiente da franquia.
Por outro lado, os americanos também reclamam dos livros de Halo. Mesmo com as obras sempre localizadas em sua língua nativa, com preços e tempos de entrega muito acessíveis, alguns fãs residentes dos Estados Unidos simplesmente não se adequaram a esta realidade, seja por uma questão de costume, gosto ou falta do hábito da leitura.

No mais, é notável que a Bungie, a Halo Studios e o Xbox permitiram que fosse criada uma divisão que, hoje, é muito difícil de ser eliminada. Mesmo nos Estados Unidos, a verdade é que uma grande parte dos fãs de Halo apenas querem ver o Master Chief atirando em aliens nas telas, pouco se importando pra qualquer trama que não seja militar. Como já constatei anteriormente aqui, Halo não é apenas sobre militarismo — muito pelo contrário. Mas as responsáveis pela franquia deixaram crescer esta visão superficial da saga e, atualmente, temos este resultado: apenas uma minoria dos fãs de Halo gostam de consumir a franquia como um todo. Não que alguém que jogue apenas os games seja menos fã, muito longe disso. Espero que esta impressão não tenha sido a mensagem que fica deste texto. Mas esta é a demografia de Halo, mesmo nos Estados Unidos.
Se Halo tem o multimídia como um aspecto essencial, os responsáveis pela franquia também deveriam ter investido para que toda sua base de fãs tivesse a mesma impressão.
É completamente compreensivo a frustração dos fãs, que esperavam a continuação de uma história tão grandiosa nos jogos. Até mesmo uma animação seria uma opção mais adequada.
Por outro lado, é possível identificar um padrão nas escolhas de histórias dos livros de Halo: se um livro continua a história de um jogo, é porque a Halo Studios/Bungie está preparando uma história muito maior e mais importante para o próximo jogo.
Foi assim em First Strike, que antecedeu Halo 2. Foi assim com Halo: Escalation, que sucedeu a história de Spartan Ops, de Halo 4, e antecedeu a história da revolução das IAs em Halo 5. Foi assim com Shadows of Reach, que mostrou a volta do Master Chief a Reach após Halo 5 para buscar um material essencial para a criação da Arma, e antecedeu Halo Infinite. Os casos são muitos, e é de se esperar que Edge of Dawn e Halo “7” sigam o mesmo caminho.

Halo: Edge of Dawn deve ser lançado no primeiro semestre de 2026. Apesar de ainda não termos uma data de lançamento definida, é de se imaginar que a obra fique apenas para o próximo ano, já que estamos em junho e ainda não temos uma capa divulgada. Mas não fique surpreso caso tenhamos um lançamento no final de 2025.
Infelizmente, é extremamente improvável que o livro seja publicado em Português. Na HPB, teremos a cobertura completa do livro e, inclusive, temos vídeos contando as histórias de The Rubicon Protocol, que é ligado diretamente a Halo Infinite e a Edge of Dawn, e de Outcasts, que conta a história do Arbitro.