Era o final de tarde do dia 8 de julho de 2014 quando milhões de brasileiros assistiam com incredulidade a uma cena antes inimaginável. Lá estava eu, apenas um jovem garoto na época, vendo a seleção alemã destruir o sonho brasileiro de conquistar o Hexa em casa, com apenas 30 minutos de jogo.
Para muitos, o famigerado 7×1 persiste como um trauma geracional — uma derrota tão devastadora que não pode ser igualada a nenhum outro vexame da história do futebol brasileiro. Mas, para mim, a Copa de 2014 foi a oportunidade de me tornar um grande admirador do futebol alemão e de aprender com a coletividade da seleção campeã do mundo naquela edição. Na época, já me encantava o Cruzeiro bicampeão brasileiro, além do primeiro time a receber minha profunda admiração por demonstrar um desempenho técnico e tático excepcional que havia sido a Espanha, campeã do mundo em 2010.
Mas nada me encantava como a Alemanha. Uma seleção campeã com tanta autoridade — eliminando a maior seleção da história —, mas que não tinha nenhum astro que destoava consideravelmente, em mídia, dos seus outros companheiros. A Alemanha não tinha um Neymar, um Messi ou um Ronaldo. O grande protagonista era a coletividade daquele time midiaticamente modesto, mas profundamente letal.
“Portugal tem Ronaldo, o Brasil tem Neymar, a Argentina tem Messi, mas a Alemanha tem um time!”, frase que viralizou globalmente durante a competição.

Cerca de 8 anos depois, já tendo atingido a maioridade, me tornei o head da Halo Project Brasil. Uma missão árdua, mas que eu sabia que era necessária ser encarada. O que o eu de 2014 não sabia é que o futebol também teria forte influência na minha filosofia de mundo e de gestão.
Por sorte, alguns anos depois do 7×1, encontrei um projeto que se encaixava perfeitamente no meu conceito do que considero a filosofia de time ideal. Na HPB, não existiam astros, não havia a figura de um “grande líder sedento por mídia”, como é comum vermos internet afora na época dos influenciadores, coaches e charlatões. Eu havia encontrado um projeto verdadeiramente coletivo, em que o grande objetivo não era dar lucro a alguém no topo, mas beneficiar o meio — a comunidade.
No seu mais profundo cerne, a HPB sempre foi — e devemos lutar para que continue sendo — um projeto extremamente coletivo. Sem espaço para charlatões ou figuras que não saibam trabalhar em equipe, sem desequilibrar o ambiente. É exatamente este o perfil de membro que buscamos para o projeto: pessoas humildes que estejam buscando beneficiar o meio e o crescimento pessoal, mas sem confundir a evolução própria com egocentrismo.
Assim como a Alemanha de 2014, a HPB não tem um Neymar. O grande protagonista é a equipe — cada membro e cada setor com sua função essencial a ser desempenhada no nosso “campo”.
Essa é a filosofia que também sempre guiou a “cadeira” de head da HPB, e deve ser institucionalizada para guiar as eventuais pessoas que assumam o cargo depois de mim. A função de head do projeto não pode servir para autopromoção, não importa de qual forma. Desde que assumi a HPB, continuei seguindo a linha do Rodrigo de não fazer o projeto girar em torno da minha figura — nem internamente, nem publicamente. A HPB não existe para me servir, mas eu aceitei o cargo para servir ao projeto. Em hipótese alguma posso me tornar o grande protagonista pois esse papel é exclusivamente da instituição. Afinal, os heads da HPB são passageiros, e a instituição deve resistir a essas transições. Tive o prazer de conversar com o próprio Rodrigo, cofundador da HPB e primeiro head do projeto, e ele deu uma palavra sobre o assunto:
“A HPB foi criada para encerrar com a vaidade que havia na comunidade. Veja, lá por volta de 2013, Halo era pouco conhecido pela comunidade gamer local, e os que conheciam pareciam fazer questão de guardar a sete chaves todos os detalhes da lore. Isso me incomodava MUITO. Quando criei a HPB no ano seguinte, a intenção foi acabar de vez com essa soberba que nem fazia sentido. Vários medalhões da comunidade entraram na HPB, e no começo tive que ter um punho de ferro para manter os interesses do projeto vivo. Deu certo, e a HPB se tornou a maior comunidade de Halo do Brasil e América Latina, uma das maiores do mundo.
A decisão de aparecer pouco veio justamente atrelada a esse sentimento de lutar contra a vaidade. Halo precisava de uma comunidade unida e consolidada, não de um influencer. A HPB não possui dono, ela não pertence a ninguém em específico. Ela é um trabalho literalmente feito por fãs, para fãs. Todos da comunidade participam de alguma forma, e a ideia era justamente essa: tornar a HPB um hub da comunidade, mas sem pertencer a ninguém, mas sim a todos!“
Cada decisão tomada, ocorre após o time ser ouvido e participar do processo criativo. A aparição pública dos membros nos canais oficiais do projeto também não é limitada a mim — na realidade, eu mal apareço. Todos os membros têm a chance de aparecer se isso for o que eles quiserem.
Jamais poderá haver alguém com a palavra absoluta sobre tudo na HPB. A cadeira de head jamais poderá ser ocupada por alguém que se apresente como a cara do projeto ou como um “salvador”. O protagonista deverá ser sempre a Instituição e o coletivo. Absolutamente nenhuma figura deverá eclipsar os outros membros e o projeto. Até porque, levar o público a confundir as inclinações pessoais de um indivíduo com os princípios e essência de uma Instituição que não tem dono, é um risco existencial para a HPB.
Essa é uma filosofia ainda pouco compreendida por alguns outros projetos, criadores e afins que buscam manter relação com a HPB. Ao longo dos anos, fui notando que, há um “olho grande” de pessoas que sonham em ter influência sob o projeto e mudar essa filosofia para moldá-lo aos seus interesses. Então, é importante ressaltar que aplicamos uma filosofia um tanto quanto semelhante na busca de parceiros: simplesmente não temos nenhuma inclinação a nos envolver em uma relação em que os egos são maiores que a humildade e austeridade.
Eu quero que vocês, seguidores da HPB, atuais e futuros membros do projeto e, quem sabe, os futuros gestores da instituição, seja daqui 5 ou 20 anos, entendam isso o mais rápido possível: dentro da HPB, não existe absolutamente ninguém individualmente maior que a HPB. Não somos um time de astros, de rockstars ou de ególatras. E quero que vocês entendam também o quanto isso é especial no momento em que vivemos. Na era digital, figuras egocentristas cujo único produto é o próprio ego, se tornam cada vez mais adoradas por uma legião de jovens carentes de inspirações. Sejam eles coaches ou influenciadores digitais, a HPB deve se manter uma fortaleza contra o egocentrismo.
Sem astros. Sem estrelas. Sem ególatras. Esta é a essência da filosofia da formação do time da HPB. Ontem, hoje e sempre.
Sem astros. Sem estrelas. Sem ególatras.
Tenho me divertido bastante escrevendo estas matérias explicando, parte a parte, a essência da Halo Project Brasil e seus princípios basilares. Na primeira matéria, escrevi sobre o foco no desenvolvimento de pessoas. Tenho algumas outras ideias sobre os próximos textos e estou muito animado em apresentá-los a vocês futuramente.
— Willian Balde, Head da Halo Project Brasil