Halo como uma analogia trans: a história do conto canônico escrito por uma autora transgênero

Willian 'Balde' Santos, 29 de janeiro de 2026

Hoje, 29 de janeiro, é o Dia Nacional da Visibilidade Trans no Brasil. Halo sempre teve um problema em dar destaque a personagens de diferentes orientações sexuais e identidades de gênero, mesmo sendo uma franquia muito expansiva e diversa. Essa realidade se dá muito por razões comerciais ligadas ao fato dos jogos FPS serem o carro-chefe da franquia, além, é claro, do seu status como principal mascote e face histórica da marca Xbox. Nesse contexto, é possível que muitos fãs até saibam que existem alguns personagens LGTBQIA+ no Universo Halo, como Felicia Anderson — a primeira personagem lésbica da franquia —, mas você sabia que Halo também possui uma história canônica escrita sob a perspectiva de uma pessoa transgênero?

Halo: Rebirth — uma analogia à experiência trans

Halo: Rebirth é uma história escrita pelo lendário Greg Bear, autor da aclamada Trilogia Forerunner, em parceria com a sua filha Chloe Bear, que é uma mulher trans. Rebirth serve como um epílogo para o livro Halo: Silentium, último da trilogia, e apresenta uma personagem enfrentando uma jornada que é, intencionalmente, uma analogia a experiências de pessoas transgênero. De acordo com Alex Wakeford, dev da Halo Studios e um dos principais responsáveis pela lore de Halo, o plano original de Chloe era que a personagem também transicionasse de gênero na história, mas “isso foi deixado para subtexto”.

“Chloe Bear é uma autora trans que esteve fortemente envolvida na Saga Forerunner ao lado de seu pai, Greg. Chloe escreveu a história do epílogo de SilentiumHalo: Rebirth, que introduziu Growth-Through-Trial-of-Change (Crescimento-Pelo-Teste-Da-Mudança, tradução literal), uma personagem Forerunner que intencionalmente traça muitos paralelos com ser trans.”

Alex Wakeford, dev do Halo Studios

Halo: Rebirth foi lançado em 19 de março de 2013 como um áudio do Halo Waypoint. Em 2022, a Halo Studios relançou a história como PDF gratuitamente, agora creditando a autora com seu novo nome.

O Universo Halo durante os eventos de Rebirth

Antes de nos aprofundarmos na história de Halo: Rebirth e em suas analogias, é importante lembrar o contexto em que o Universo Halo se encontrava durante os acontecimentos narrados e, principalmente, entender quem eram os Forerunners e como a sua sociedade milenar se organizava. Uma das espécies mais proeminentes do universo de Halo, os Forerunners compartilharam a galáxia com a humanidade antiga — muito mais avançada que a atual — e com os criadores de toda a vida conhecida, os Precursores, por milhões de anos.

A sociedade Forerunner era dividida em castas, que separavam de forma rígida os indivíduos e grupos de acordo com as funções que lhes eram atribuídas de forma coletiva: Mineiros, Lifeworkers, Guerreiros-servos, Jurídicos e Construtores — além de várias outras castas que foram assimiladas forçadamente ao decorrer dos milênios pelos Construtores. As castas são diferenciadas não só por funções, mas também por alterações biológicas extensas, que causam mudanças profundas nos corpos e na aparência dos indivíduos de cada grupo. Geralmente, os descendentes herdam a casta dos pais. As duas castas principais que aparecem em Rebirth são os Construtores e os Lifeworkers.

Os Construtores são a casta mais alta da sociedade Forerunner, responsáveis por arquitetar e projetar grandes instalações, como os anéis Halos. Já os Lifeworkers são a terceira casta mais alta, e são especialistas em biologia e medicina, podendo criar ecossistemas em instalações, experimentar com novas formas de vida, terraformar planetas e mais.

Growth-Through-Trial-of-Change, a personagem que é, oficialmente, uma analogia trans

A história introduz a personagem Forerunner ‘Growth-Through-Trial-of-Change’, uma Lifeworker que entra em contato direto e constante com um dos protagonistas da Trilogia Forerunner, o humano Riser, o ajudando a se readequar à sua nova vida. No período de Rebirth, os Forerunners estão colocando em prática o processo de semear novamente a vida na Via Láctea após o disparo dos anéis Halos, que destruíram todos os seres orgânicos sencientes na galáxia. Por isso, Riser e outras dezenas de humanos são cuidados pelos Forerunners restantes, como Trial e Bornstellar, até que pudessem ser enviados de volta à Terra para que a humanidade repopulasse o planeta.

Porém, Trial nem sempre foi uma Lifeworker. Originalmente, ela era uma Construtora e foi deserdada por sua família após transicionar para a casta de Liferworker.

Em uma das últimas conversas com Riser, Trial evidencia seus paralelos com a jornada de uma pessoa trans:

“Seu nome parece combinar com você”, disse Riser. “Trial significa julgamento. Também significa problema. Como você o ganhou?”

“Foi dado a mim pela minha família adotiva”, disse Trial. “Eu nem sempre fui uma Lifeworker, mas isso foi há milênios. E esse mundo é passado agora. Acabou.”

“O que aconteceu com sua família biológica?” perguntou Riser sem rodeios.

Trial balançou a cabeça negativamente. “Eles eram Construtores, mortos antes mesmo da chegada do Flood. Uma implosão repentina de uma estrela próxima enquanto viajavam entre mundos. Mas antes disso, quando lhes disse que desejava me tornar uma Lifeworker — mudar de posição — eles ficaram muito zangados comigo. Disseram que me cortariam deles. Então, eles se foram. Eu tive que honrá-los, mas também honrar meus próprios instintos. Os meus me abandonaram, mas os Lifeworkers me acolheram. Essa provação me transformaria, me permitiria me tornar quem sou e me prepararia para a grande luta que se seguiria.”

Ela colocou a mão no ombro de Riser. “Acredite em alguém ainda mais velha que você, Riser. A vida é pouco mais que provações (Trials, em inglês). É como permitimos que elas nos moldem que nos torna quem somos. Os Forerunners falharam em sua provação. Agora é a vez dos humanos assumirem o Manto.”

Na sociedade Forerunner, sua casta determina como você é “biologicamente personalizado” para se adequar ao seu “papel”. Nascida na casta de Construtor, Trial decidiu que queria fazer a transição para se tornar uma Lifeworker e foi rejeitada por sua família por isso, mas encontrou uma nova família de apoio com sua nova casta. Originalmente, Chloe pretendia que Trial tivesse mudado de gênero nesse processo, mas isso infelizmente foi deixado para o subtexto. Trial também aparece na história curta Halo: Fractures ‘Promises to Keep’, onde ela se sacrifica para iniciar o processo de cura do Domínio para a humanidade.

Alex Wakeford, dev do Halo Studios

Os Forerunners, no geral, também são uma analogia trans?

Antes mesmo do lançamento de Halo: Rebirth, a sociedade Forerunner já traçava paralelos implícitos com a jornada de uma pessoa trans. Baseado nisso, a própria Chloe Bear decidiu expandir a lore deixada pelo seu pai, que é um dos maiores responsáveis pela construção da lore da raça.

Chloe Bear, que é trans, buscou estabelecer essa associação de forma mais direta em Rebirth, onde Growth-Through-Trial-of-Change teria transitado tanto em termos de casta quanto de gênero.

Alex Wakeford, dev do Halo Studios

Segundo o próprio Alex Wakerford, o conhecido personagem Bornstellar também poderia se encaixar nisso. Porém, diferente da história escrita por Chloe, outras possíveis analogias trans ainda não são oficiais. A história que é confirmada oficialmente como uma analogia trans é Halo: Rebirth, com a personagem Trial.

Eu destacaria a Saga dos Forerunners, que explora elementos de narrativas trans. A transição literal de Bornstellar de Construtor para Guerreiro-Servo é particularmente evocativa nesse contexto(…) Claro que hesito em chamar isso de representação, mas a história de Bornstellar em Halo: Cryptum envolve disforia, preconceitos sociais e outras coisas do gênero (…) A posição social (ou casta) de uma pessoa é tratada como o nosso equivalente ao gênero, portanto, o paralelo trans é evocado mais subtextualmente do que superficialmente.

Alex Wakeford, dev do Halo Studios

Ele continua em outra declaração, explicando porque muitas pessoas trans se identificam com Bornstellar:

Bornstellar passa por uma “transição” semelhante em Halo: Cryptum também, pois ele nasceu um Construtor, mas é o Didact quem o guia através da maturidade por meio da mutação para se tornar um Guerreiro-Servo. Parte da seção do meio do livro detalha como o corpo de Bornstellar está fisicamente entre as características associadas a cada casta, conectado a ambas de alguma forma e ainda não está lá com nenhuma delas, o que vi algumas pessoas trans se relacionarem.

Então sim, Halo também possui oficialmente em seu Universo analogias a pessoas e experiências trans.

Desejamos um feliz Dia Nacional da Visibilidade Trans para todos que nos acompanham!

Nosso objetivo é que este texto lhes faça se sentir mais à vontade com a franquia Halo. Infelizmente, sabemos que a nossa amada saga de ficção cientifica é instrumentalizada, constantemente, como ferramenta de disseminação de ódio e preconceito. Mas Halo não poderia estar mais distante disso.

Halo é para todos.



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