Recentemente, o dublador do personagem Master Chief, Steve Downes, criticou o uso de sua voz em vídeos propagandísticos usados pela Casa Branca para apoiar a campanha de guerra dos EUA contra o Irã.
O artigo à seguir não reflete as opiniões da Halo Project Brasil, mas exclusivamente do autor.

Segundo o próprio, ele afirma que não foi consultado para a produção do vídeo e que não apoia essa “pornografia nojenta e juvenil de guerra”, em suas próprias palavras. O vídeo e outras peças de divulgação, que incluem paródias de Superman e Call of Duty, fazem parte de uma estratégia da administração do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de se comunicar com os mais jovens. Enquanto esquerda e direita brigam ardentemente sobre quem é o inimigo e quem é o Master Chief da história — em uma visão maniqueísta e infantil do mundo —, o senso crítico e um bom entendimento da franquia mostram que é melhor não usar Halo para promover ideologias.



A priori, a moral dos personagens e facções de Halo são, via de regra, desprezíveis. Por exemplo, o Governo Unificado da Terra, visto como o defensor da humanidade e da paz, é o responsável por massacres contra rebeldes, sequestro de crianças, tortura, espionagem, experimentos mortais com pessoas que deixariam os cientistas do Japão Imperial enojados. Embora, nos jogos, a UNSC se assemelhe muito à marinha americana e aparente haver uma sociedade saudável por trás dela, o que existe, de fato, é um estado totalitário mais próximo das ditaduras do século XX do que de qualquer utopia. E quanto as facções rivais, nenhuma é totalmente análoga aos inimigos dos EUA como a Casa Branca quer pintar: os imigrantes, ainda que ilegais, não são uma força invasora como o Flood e os iranianos, que embora sejam governados por teocratas fundamentalistas, não são uma massa uniforme de fanáticos dispostos a eliminar os americanos, o ocidente ou a cristandade. Dessa forma, o que já era óbvio fica mais evidente: Halo não é sobre os caras bons contra os maus, e o mundo real menos ainda.

A posteriori, se há uma mensagem em Halo, é justamente a rejeição ao fanatismo e à propaganda. Sob esse viés, o Covenant, e o Governo Unificado da Terra, apresentam a alienação da população como característica em comum. Paralelamente, o livro ficcional 1984, o romance distópico do escritor inglês George Orwell, apresenta um governo que controla as narrativas públicas com maestria, sendo capaz de distorcer a verdade, como, por exemplo, quem está em guerra com quem ou qual o preço dos produtos sem que ninguém note a diferença. Em Halo, o Covenant justificou um genocídio e a ativação dos Halos através da fé. Não obstante, a UEG justificou o programa Spartan como arma para lutar contra o Coventant, mesmo que suas origens datem da época das insurreições. Quando conveniente, Master Chief foi chamado de héroi, quando não, de traídor. É notável, portanto, que a propaganda torna as pessoas capazes de atos terríveis.
Em síntese, Halo é uma obra complexa e seu uso em propagandas pela Casa Branca é apenas tosco. Assim, que sirva de exemplo para outros agentes políticos e de alerta para população: o maniqueísmo e a desumanização do adversário, auxiliados pela propaganda, não servem a ninguém senão àqueles que detém o poder.